De moto pelos caminhos da América do Sul

 De moto pelos caminhos da América do Sul

Qual é a primeira imagem que vem à cabeça quando você pensa em “América do Sul”? São as praias brasileiras, o sertão do agreste, a floresta cheia e amazônica? São as paisagens frias do Chile (os vinhedos), ou Machu Picchu com suas lhamas serpenteando montes verdes?

Seja qual for a memória, quem tem o privilégio de visitar os outros locais da América do Sul costuma parar em algum desses pontos em específico. Em cidades, em capitais, em um desses biomas citados acima, a cada vez.

Algumas pessoas, no entanto, acabam optando por um tipo diferente de viagem, em que não se conhece apenas os “pontos” de turismo, mas os caminhos. Não só Lima, capital do Peru, mas a estrada que conecta essa cidade com o Brasil e com a Bolívia – com as cordilheiras e as florestas da Amazônia. Mais do que isso, essas pessoas têm a possibilidade de viver a experiência com o vento no rosto e o cheiro de café da vizinhança pregando na roupa.

São várias as expedições de motociclismo pela América do Sul, com diferentes partidas e destinos – mais importante, com diferentes estradas.

Marcelo Vigneron é fotógrafo profissional e motociclista, e sempre participou de viagens desse tipo. Nos anos 90, ele se juntava a um grupo de caminhoneiros que fazia percursos pelos países, em uma série de expedições de nome Projeto Pacífico. De 25 anos para cá, ele conta que a mudança nas condições das estradas é radical, e que viajar por elas é sempre uma experiência muito diferente.

“Naquela época, eu posso dizer que muitas das estradas que hoje a gente usa, de asfalto, eram praticamente trilhas abertas no meio da selva. Eu mesmo cheguei a viajar por várias dessas estradinhas que eram quase um leito de rio, e hoje em dia são estradas asfaltadas sem buraco nenhum”, conta.

Ele veio acompanhando, ao longo desses anos, um projeto chamado Expedição Interoceânica, que hoje se transformou e leva o nome de Honda RedRider (com alguns dos mesmos organizadores, mas esquemas diferentes). Vamos contar um pouco mais sobre sua experiência e sobre os projetos em si, que são algumas das maiores expedições de motociclismo pela nossa América.

As Expedições Interoceânicas

Crédito: @marcelovigneronfotografia

Seu idealizador principal foi Oswaldo Xavier Dias, dono de uma grande concessionária em Rio Branco, no Acre: a Star Motos. Junto com Cassiano Marques, sócio administrador da EME Amazônia (uma operadora de eventos de turismo), realizaram 5 expedições ao longo dessa última década: em 2011, 2012, 2013, 2015 e 2017.

A ideia de realizar essas viagens partiu de um outro projeto mais antigo, o Projeto Pacífico. Marcelo explica que esse, em si, era realizado com caminhões de uma transportadora chamada Expresso Araçatuba, e que o objetivo era estudar a viabilidade de rotas entre o Norte, o Centro-Oeste do Brasil e a costa do Pacífico.

“Na época, queríamos estuar se seria possível encontrar um caminho para os produtos que viajavam entre o oriente e a América Latina, usando portos que não fossem os portos brasileiros pelo Atlântico (em Santos, Rio de Janeiro ou Paraná)”. O fotógrafo acompanhou 5 dessas expedições.

Com o tempo, no entanto, Oswaldo Dias teve a ideia de transformar esse conhecimento das estradas em uma atividade específica para motoqueiros que tinham vontade de conhecer as rodovias e os países da América.

Daí nasceram as Expedições Interoceânicas. Elas reuniam vários motociclistas por 22 a 42 dias, levando-os para trajetos impressionantes e com um roteiro planejado em detalhes pelos organizadores: Oswaldo e Cassiano.

RedRider

Crédito: @marcelovigneronfotografia

Atualmente, esse projeto se transformou. A Star Motos faz parte da Honda, e essa sempre atuou como patrocinadora das Expedições Interoceânicas. Em 2016, a empresa tinha acabado de lançar um modelo de moto chamado Africa Twin, e queria fazer uma grande viagem com ele. “Nós apoiamos, fizemos toda a logística e a roteirização de uma viagem do Guarujá à Lima. Então foi a primeira grande viagem continental da Africa Twin aqui na América do Sul, em 2017”, explica Cassiano Marques.

A partir disso, e com a ideia de criar uma base para viagens internacionais no Acre, a Honda lançou um ‘piloto’ de um novo programa: o RedRider. Em 2019, os contratos foram assinados e a primeira viagem foi realizada em novembro, para o Peru. O novo projeto, que tem estado mais parado no ano de 2020 por causa da quarentena, tem três componentes principais: o RiderFun, o RiderTrainee e o RiderExpedition. O primeiro realiza eventos de confraternização, promocionais, passeios curtos de um dia. O segundo tem o intuito de treinar os clientes da Honda para viagens maiores. E o terceiro é o que faz essas expedições maiores: tanto nacionais, como pela Amazônia, como pelos países vizinhos.

A ideia desse programa é que, nas expedições grandes, o motociclista já tenha comprado um pacote que lhe dá direito ao uso da moto, aos hotéis, ao combustível e a várias refeições. Seu tempo de duração costuma ser mais curto do que o das Expedições Interoceânicas: ao invés de 20 ou 40 dias, as viagens são feitas em 15, com uma média de 450 quilômetros rodados por dia.

As datas são pensadas, sempre, levando em conta as condições climáticas dos locais da viagem. Na Amazônia, por exemplo, é sempre preciso fugir das estações do ano mais chuvosas, pois as estradas ficam difíceis de enfrentar (“impraticáveis”, como diz Cassiano).

Crédito: @marcelovigneronfotografia

Já os roteiros são montados a partir de uma visão de integração, de alcançar destinos turísticos novos e destinos que já são consagrados (como a ida à Cusco, em Machu Picchu). Os pedidos de clientes também são levados em conta, assim como a passagem por estradas muito diferentes (em cordilheiras, montes nevados) que proporcionam uma visão bonita e única.

As expedições são acompanhadas por um moto guia, por um mecânico, por um fotógrafo, um cinegrafista, além de todo o kit de segurança, com peças de reposição, e uma caminhonete. Tudo programado em detalhes para que a viagem seja feita de uma maneira segura e para que os imprevistos possam ser reparados.

“Um projeto como esse requer um planejamento intenso onde a gente tenta planificar minuto a minuto, desde o primeiro dia, a hora que acorda, a hora que faz check out, tudo. A fase de planejamento é muito exaustiva, porque ela requer um conhecimento de causa, e a gente tem a alegria de viajar pela América do Sul há 25 anos. Então todos os modelos são previamente testados por nós antes, e são aprimorados a cada viagem”, explica Cassiano.

As Paisagens mais lindas e marcantes

Entre as tantas experiências que Marcelo Vigneron já teve viajando nas expedições, desde os anos 90, ele destaca duas como as paisagens mais lindas que já vivenciou.

Crédito: @marcelovigneronfotografia

A primeira delas é um lugar chamado Canyon del Pato, no Peru. É um conjunto de cânions, perto da chamada Cordilheira Branca, com um rio passando lá embaixo. “Você vai atravessando dezenas e dezenas de túneis esculpidos em rochas, que foram construídos no começo do século XX na base da pá, da picareta, da dinamite. Extremamente selvagem, extremamente bonito”, conta.

Diz que são tantos que nem é possível numerar. Alguns mais longos e outros mais curtos.

O outro lugar tem algo de quase sagrado. Marcelo brinca que, assim como todo muçulmano tem um dia que fazer peregrinação à Meca, todo motociclista de longo curso (que gosta de fazer viagens longas) deve ir ao Salar de Uyuni.

Esse é o maior deserto de sal do mundo. Fica no alto da cordilheira e é uma planície de sal que tem, na sua parte mais longa, quase 100 quilômetros de extensão.

Crédito: @marcelovigneronfotografia

“É gigantesco, você consegue andar por cima do sal, retinho. E você olha para o lado e não tem nada, nenhuma referência. Dá uma impressão que você não está nesse planeta. E em algumas épocas do ano, chove e forma uma lâmina de água que reflete o céu azul. Então você olha e vê o céu em cima e embaixo, e parece que você está andando no céu. Esse lugar, visualmente, acredito que seja o mais impressionante que eu já viajei de moto”.

As Histórias mais emocionantes

Crédito: @marcelovigneronfotografia

“Nós fizemos uma travessia muito dramática, porque o caminhão estava andando por uma crista de cordilheira, com abismo dos dois lados. A gente estava tentando chegar em Cusco, foi uma aventura durante a noite. Teve gente que passou mal, e nós fomos chegar até Cusco pela manhã. Durante a noite toda, eu fiquei com aquela sensação de que uma tragédia podia acontecer”.

Então, no ano passado, Marcelo teve a oportunidade de fazer o mesmo caminho durante o dia. “Aquele trecho, que eu nunca tinha visto com clareza, é um trecho lindíssimo, cheio de lagos, de altitudes, com umas áreas nevadas, com passagem por várias vilas, com abismos altíssimos”, conta. Foi pilotando na frente, para fotografar o grupo vindo de trás, e foi uma travessia muito tranquila, em que pôde se concentrar no trabalho.

“Foram duas vezes que passei pelo mesmo trecho com espíritos completamente diferentes”.

Já Cassiano Marques conta que, ainda na segunda Expedição Interoceânica, todos fizeram a largada em Santos em 2012. Montaram um balão de ar quente, que viajou com os motociclistas durante toda a viagem. “Em 18 dias, nós montamos o balão 15 vezes, nos locais de pernoite e nas cidades onde a gente chegava. E isso criou uma empatia muito grande com a população da cidade, que na sua maioria nunca tinha visto um balão a ar quente”, conta.

Nessa viagem, eles cruzaram toda a América do Sul, no sentido Leste-Oeste. Começaram em Santos e concluíram a expedição no Pacífico, no porto de Matarani, no Peru. Tinham levado um galão de 20 litros de água salgada do Atlântico, captada nas proximidades da largada. Quando chegaram, não só os membros da expedição, mas autoridades do Peru e da própria embaixada brasileira estavam lá.

“Nós despejamos essa água do Atlântico no Pacífico”, lembra Cassiano. “Isso foi muito marcante, porque a gente verdadeiramente fez um gesto de integração Leste-Oeste da América do Sul através de um movimento de motociclismo”.

Não é uma viagem comum

Pode parecer, enfim, que essas experiências poderiam ser replicadas em um outro meio de transporte (um carro, por exemplo). E com certeza, os resultados também poderiam ser incríveis. Mas o fotógrafo Marcelo diz que ainda acha que as viagens de moto são diferentes de qualquer outra. “Ela em si mesma já é o objetivo. O objetivo não é o final, o destino turístico, mas o caminho”.

Além disso, o motociclista fica completamente exposto. Ele não é apenas um observador, como também faz parte da viagem. “A gente sente o vento, o frio, o calor, os cheiros… Se você estiver passando perto e tiver alguém fazendo café, você vai sentir o cheiro do café, no meio daquele deserto em uma casinha. Se o cara ligou o fogão à lenha, você vai sentir o cheiro do fogão à lenha. E é uma coisa que você não sente viajando de carro, com a janela fechada”, conclui.

Para ele, talvez a única coisa que se aproxime disso é fazer a viagem a pé ou de bicicleta. Mas aí, o andarilho precisaria de um pouco mais de preparo físico (e de tempo também).

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